AJUDA DE aquariofilia marinha - REEFFORUM

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Estresse: a maior causa de mortandade

Após falar um bocado a respeito de corais e outros invertebrados, vamos tocar num assunto bastante delicado. Todos sabemos que perdas de peixes são inevitáveis, e em alguns casos, encontramos peixes considerados impossíveis de se manter em aquários. Em relação a estes, a atitude a tomar é evitá-los. Se não comprarmos esses peixes, o lojista não os comprará do importador, que por sua vez não o importará. A falta de pedidos desses animais desinteressará o coletor no país de origem, e assim se fecha o ciclo. A espécie é deixada em paz. Existem algumas espécies tão exigentes nos requisitos alimentação e ambiente, que é muito difícil para o aquarista atingir esses requisitos em casa.
Mas este artigo trata de peixes que se importam e vendem, e por conseqüência, compramos para nossos aquários. Algumas espécies são mais delicadas do que outras, como veremos a seguir, mas todas devem ser tratadas basicamente da mesma forma, quanto à aclimatação.

Após o primeiro contato com o peixe na loja, e passada a primeira impressão (como aficionados, é natural que fiquemos positivamente impressionados ao ver peixes numa loja), devemos observar alguns pontos; o animal deve aparentar tranqüilidade ao nadar, respiração calma, apetite e curiosidade pelo meio em que se encontra. Ao nadar, o peixe não deve estar se roçando na decoração ou no fundo do aquário; isso é sinal de parasitismo. O mesmo serve para a respiração – muito acelerada, pode indicar água muito quente, amônia ou nitritos na água, ou, finalmente, parasitas de guelra. O apetite do peixe demonstra sua disposição em se manter vivo, e portanto, um bom sinal de que pode ter superado os vários traumas que sofreu desde a coleta. A curiosidade é um parâmetro subjetivo, e de todos, é relativamente o mais difícil de determinar. Existem espécies mais ativas e outras mais calmas, mas em geral, peixes que apresentem nadadeiras encolhidas, fiquem no canto do aquário, ou sempre escondidos na decoração da bateria de exposição da loja devem ser evitados. Provavelmente, esses peixes não se alimentarão, sofrerão as conseqüências óbvias. Algum fator ambiental estaria incomodando tanto, que ele não consegue reagir. Esse fator geralmente é o estresse. Não é difícil imaginar as várias etapas por que passam os peixes desde que são coletados, e podemos também pensar que os "heróis" que chegam às lojas estão com os nervos à flor da pele, provavelmente de estômago vazio há bastante tempo. Ora, se estão com os nervos em frangalhos, sem alimento (fonte de energia) seu metabolismo será exigido ao máximo, e portanto o pouco de energia armazenada em seu organismo será rapidamente consumido. Por isso é que geralmente os peixes chegam às lojas tão magros. Provavelmente, ele está sem comer nada há dias, ou talvez, semanas. Desde a captura, um espécime pode levar duas ou três semanas para chegar ao aquário definitivo. Ele é coletado, e espera que a estação de coleta tenha reunido uma quantidade razoável de animais para justificar um embarque. Daí, entre três dias e uma semana, ele segue para o distribuidor, que por sua vez espera reunir os animais que tem pedidos por seus clientes para justificar uma boa carga. Após a viagem o animal chega ao país de destino, e do importador segue para a loja. Da loja, com sorte, ele sai em alguns dias, e é só nesse momento que ele recebe alimento. Essa atitude de não alimentar o peixe nos dias antecedentes ao embarque de avião não é mera "tortura", mas sim preventiva à intoxicação que as fezes do peixe fatalmente causarão ao peixe no ambiente exíguo que representa um saquinho to tipo em que são transportados.

Se o coletor, no país de origem, embarca rápido seus peixes, está apenas fazendo o que se espera dele. O problema vem daí em diante.
O distribuidor deveria esperar três ou quatro dias para embarcar esse animal novamente, esperando que ele se aclimatasse e começasse a se alimentar. Seria, então, embalado e embarcado para o importador, que usaria do mesmo expediente, e do importador para a loja, o procedimento deveria ser o mesmo. Mas o próprio mercado considera isso inviável. Dizem os distribuidores que se esse procedimento fosse tomado, os animais custariam o dobro por causa de custos de manutenção. Além disso, existe no mundo todo uma demanda tão acentuada por esses animais, que comerciantes locais literalmente "limpam" os estoques dos distribuidores no mesmo dia em que chegam. O mercado se acostumou a isso, e portanto essa é a regra. A maior parte dos peixes, portanto, chega no limite de suas forças ao destino final.

O ponto final é seu aquário, e é você que sustenta toda essa máquina. Não se iniba, pois, em pedir a seu lojista que alimente o peixe para você ver. Peixe que aceita alimento é grande candidato a superar todos esses problemas, pois está disposto a repor energias.

Se ele for colocado em um aquário onde não sofra pressão de seus colegas de aquário, num ambiente que no mínimo faça-o lembrar daquele de sua origem, sua recuperação será certamente mais rápida.

A aclimatação é fundamental, portanto. O famoso saquinho boiando por horas no aquário só serve para estressar ainda mais o peixe. Veja por este ângulo; após ser posto em vários lugares que nunca viu, o peixe é finalmente ensacado pela última vez (se der sorte). Daí, vai para a casa do aquarista, e fica boiando por horas, vendo um ou vários abrigos parecidos com os que ele conhece (finalmente !), mas não consegue nadar até lá porquê uma barreira invisível – o saquinho de plástico – não deixa. Já notou como o peixe fica ofegante e nervoso no saquinho, logo antes de o soltarmos no aquário ? Então...

Para aclimatar bem um peixinho, devemos contar com um recipiente que possa conter pelo menos duas ou três vezes o volume de água do saquinho em que ele vem. Solta-se o peixinho nesse recipiente, e deixa-se uma mangueirinha pingar lentamente água do aquário, até dobrar ou triplicar o volume original. Isso toma horas, às vezes, e não há mal nenhum. Se o aquário for bem cuidado, sua água tem alto teor de oxigênio, e níveis compatíveis com as necessidades dos peixes, em pH, reserva alcalina, etc. Ter aquário bom, portanto, é uma prerrogativa.
Aquela famosa experiência do "vamos ver o que acontece", ou "quem não arrisca não petisca", geralmente tem resultados desastrosos.

Salvo em raras ocasiões, onde é melhor soltar o peixe imediatamente para tentar evitar sua morte imediata - e nesse caso, você não deveria tê-lo comprado, para começar - devemos seguir os passos acima para aclimatar qualquer animal.

Escolher animais compatíveis também é uma necessidade. Comprar um predador, por exemplo, deve levar em conta os outros habitantes do aquário, a fim de evitar o óbvio. Na natureza, para os predadores, se passar pela boca, é alimento. Já vi peixes serem engolidos por outros quando os estamos aclimatando, ambos – o engolidor e sua vítima - chegando de uma viagem de mais de 24 horas ! Não faz sentido, portanto, arriscar. Não existe garoupa ou lionfish "mansinho"; se e quando for possível, um tenta comer o outro. Às vezes, consegue, e o aquarista perde um peixe.

A respeito de qualidade de água, já consideramos várias possibilidades em artigo anterior, tanto para detectar quanto para resolver problemas. Chegamos à conclusão, portanto, de que temos a obrigação, por assim dizer, de manter a água do aquário na melhor condição possível.

Por exemplo, níveis constantes de nitritos na água são inadmissíveis.
Se isso for verificado, algo de errado está acontecendo. Nitritos e amônia são altamente estressantes para os peixes, e níveis de até 0,05 ppm podem ser sentidos de forma negativa.

O manuseio do animal também pode ser determinante. Redes plásticas de malha grossa podem prender nadadeiras, guelras, esporões e outras partes do corpo do peixe, ferindo-o a um ponto que pode comprometer sua saúde a longo prazo. O ideal seria usar rede de plástico sem malha, ou apenas com um furo maior para escoar a água.
O peixe não deveria ser exposto ao ar em nenhuma hipótese. Mesmo o traslado da rede para o aquário deveria ser feito com o peixe sempre dentro d’água. Como devemos evitar que a água do saquinho plástico seja introduzida no aquário, essa operação deve ser feita após a aclimatação descrita acima. Após triplicado o volume de água em relação à água do saco, podemos passar o peixe para outro recipiente com água do aquário apenas, e colocar tanto o peixe quanto a água no aquário. Esse cuidado é muito importante, pois a tentativa do peixe de respirar ar fora d’água traz sérios prejuízos às guelras do peixe. O oxigênio não dissolvido na água causa o mesmo efeito de quando respiramos oxigênio puro (de "garrafa"); ocorrem queimaduras no sistema respiratório, e essa irritação naturalmente prejudica mais ainda a saúde do animal, a essa altura estressado o bastante.

Não é de estranhar uma coisa que já notei, e que pode se confirmar por observação; qualquer peixe tem uma espécie de "trauma de redinha". Qualquer tentativa por parte do Aquarista de se aproximar do aquário com uma rede na mão parece disparar o horror dos peixes; nadam rapidamente para os esconderijos, e permanecem lá até que a rede desapareça de sua vista. Já tentei até me aproximar com redinha e pote de alimento – sem resultado diferente. Parece que o medo da rede é pior do que a fome. Se a lembrança da rede não fosse relacionada a sustos e momentos horrorosos, o peixe não teria esse pavor todo. Temos um peixe palhaço de 12 anos de aquário, criado em cativeiro, que até hoje tem medo de redinha. Não é o pavor que peixes coletados têm, mas é medo. Natural, pois toda vez que passeou de redinha, foi para mudar de ambiente, coisa que peixe nenhum aprecia. Também já vi peixes há muitos anos em um aquário serem mudados para outro e morrerem pouco depois. Estranhamente, isso ocorreu mesmo que a mudança fosse para melhor, ou seja, aquário maior e melhores condições de água.

Alimentação é obviamente um parâmetro crítico. Muitas espécies se alimentam de uma grande variedade de ítens no ambiente natural, e a indústria do aquarismo provê hoje em dia uma gama de alimentos que podem substituir o que o peixe está habituado a ingerir, se tratarmos de qualidade. No que toca ao aspecto visual do alimento, porém, há enorme diferença. Por sorte, peixes são muito mais movidos por olfato do que pela visão ao procurar alimento, e dependendo da qualidade do que oferecermos, a maioria acaba se alimentando. Como alimento introdutor ao cativeiro, artêmia salina e seus náuplios são muito estimulantes para o peixe. Artêmia viva é ainda mais interessante, mas deve-se tomar certas precauções. A artêmia ocorre em água de altíssima salinidade, e vez por outra, água nem um pouco limpa. É muito comum encontrarmos ocorrência de parasitismo após alimentar peixes com artêmia; isso porquê a artêmia serve como vetor para os parasitas, ou seja, ela carrega o parasita ou seu cisto para seu aquário.
Se antes de alimentar os peixes deixarmos a porção de artéria de molho em água doce corrente por duas ou três horas, acabaremos com a maioria desses problemas, pois o choque osmótico que a grande variação de salinidade provoca rompe a casca que recobre o animal, e provavelmente também a do parasita.

Após aclimatar o peixe, devemos apagar as luzes do aquário. Isso faz com que ele se assuste menos, e seus novos colegas de aquário não prestarão muita atenção na novidade que ele representa.

Devemos planejar o aquário de maneira a introduzir espécies menos agressivas antes dos peixes mais nervosos, pois estando já acostumados, os mais calmos agredirão menos o peixe mais agressivo que chegou por último. Se fizermos o inverso, é muito provável que o peixe mais agressivo, já estabelecido, persiga o novato, às vezes até a morte.

Tomados esses cuidados, a não ser que o peixe tenha sido capturado com venenos (quenaldine ou cianureto), podemos prover o animal de condições satisfatórias para uma longa vida em aquário.

O problema de envenenamento é muito grave, e ainda ocorre muito, infelizmente. A facilidade que o envenenamento apresenta para o coletador, é uma tentação irresistível. Além disso, geralmente quem trabalha com coleta de peixes não tem esta como única atividade profissional, e nem ela representa sua principal fonte de renda. O resultado é um descaso evidente com a coleta e manuseio dos animais.
Para o coletador, a dose de veneno administrada deve ser suficiente apenas para atordoar o peixe, fazendo com que seja fácil capturá-lo. O que acontece daí para diante é problema de quem comprar o peixe.
Esse raciocínio foi válido por anos e anos, até que recentemente começou-se a verificar um forte movimento dos distribuidores no sentido de só comprar peixes não envenenados, pois as reclamações dos importadores e lojistas começou a ficar insuportável.

Naturalmente todos os peixes coletados nunca serão totalmente livres de envenenamento. Mas as quantidades de Acanthurus, por exemplo, que antigamente vinham envenenados em grande quantidade, já está reduzida a praticamente zero.

O treinamento do pessoal de coleta e a conscientização ambiental trazem frutos, e possivelmente a situação melhorará muito nesse campo a médio prazo.

Podemos colaborar com o mercado participando dele construtivamente, tendo paciência quando algo der errado, principalmente porque estamos lidando com seres vivos. O fato de perder um peixe ou coral não quer dizer que o lojista ou o peixe, ou seja lá quem for, tem culpa disso. Nosso papel é fazer o melhor possível. Se mesmo assim, tivermos problemas, teremos ao menos a consciência limpa.

Conheço outros peixes muito antigos em aquários, além do palhacinho de 12 anos citado no início deste artigo; tenho inclusive, notícias de um Pygoplytes diacanthus, passado por mim para uma aquarista amiga há três anos, que neste ano completará 5 anos de aquário, muito bem vividos. Sei também de muitos outros peixes em aquários de amigos, inclusive um caso notório de um Pomacanthus imperator de 15 anos num aquário !

Com certeza, tomando as devidas providências, podemos desfrutar de uma longa amizade com nossos amigos marinhos. A dedicação e cuidados quando primeiro os introduzimos em nossos aquários podem ser decisivos.

http://www.aqua.brz.net

Ricardo Miozzo
Colaborador de Aquarismo Marinho

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