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Estilo "Jaubert" e problemas provenientes da montagem errada deste sistema

Muito bem; após vários contatos pessoais e relatos de aquaristas, resolvi tocar nesse assunto. Muitas pessoas têm tido e reportado problemas com aquários em que um filtro denitrificador de fundo foram estabelecidos. Em quase 100% dos casos, os aquários apresentam, após um certo período de vida aparentemente saudável, problemas insolúveis de algas daninhas, altos teores de fosfatos, rochas perdendo alga coralínea e vários outros fatores agravantes, que terminam por condenar seu bom andamento.
O Aquarista culpa o filtro denitrificador. De fato, o problema está ali, mas não é culpa do filtro, nem do Dr. Jaubert em pessoa.

Vamos a um pouco de história para deslindar esse nó;

Já na década de 60, um aquarista indonésio chamado Lee Chin Eng surpreendeu o mercado aquaristico mundial, pois montava aquários chamados por ele de "naturais". Os sistemas contavam com o uso de rochas vivas, e no fundo do aquário era colocada areia "viva" do recife de corais que havia perto de sua casa. A iluminação era natural sempre que possível, e forte luz artificial era usada para suplementar a luz do sol, quando esta não era disponível. A movimentação de água era feita por pedras porosas, que colocadas perto do fundo de areia produziam efeitos satisfatórios. Não se utilizava skimmer ou qualquer filtro químico, e daí vem, com certeza, o nome que Sr. Eng deu a seu sistema de montagem. Por problemas de pouca divulgação, falta de material publicado, e, na minha interpretação, erros crassos em detalhes na reprodução dos sistemas, nunca foi possível copiá-lo no Ocidente. Por causa disso, e também por causa do Sr Eng Ter falecido cedo, o sistema chegou a ser até motivo de chacota e muitas dúvidas foram levantadas sobre a veracidade das reportagens feitas na época a esse respeito.

Cerca de vinte anos mais tarde, Dr Jaubert, responsável por um aquário público na Europa, apresentou resultados extraordinários, com comprovação científica, em sistemas quase idênticos ao do Sr Eng. O sistema era basicamente igual, diferindo apenas na descrição detalhada do aparato montado sobre o fundo dos aquários. Fico hoje pensando se já há quase quarenta anos, não seria exatamente esse o "segredo" do Sr. Eng ? Quem sabe ninguém tenha conseguido copiar esse sistema, por causa desse diferencial ? Mas essa dúvida vai ficar para sempre...

O fundo dos aquários do Dr. Jaubert é equipado com uma divisória permeável, de forma que permita a formação de uma camada de água quase parada, de altura variável, que se comunica com o resto da água do aquário por um processo chamado difusão. A água nessa região (plenum) não sofre movimentação forçada de nenhuma espécie; apenas o processo de troca química empurra a água do fundo para cima, e vice-versa. De resto, o aquário que o Dr. Jaubert monta é idêntico ao do Sr. Eng.

Em relação a trocas d’água, porém, existem diferenças; os aquários do Sr. Eng contavam com 5% de trocas mensais, enquanto os sistemas do Dr. Jaubert recebem água direto do mar, e a taxa de trocas chega a até 5% por dia. Vê-se que o Dr. Jaubert conta com mais de 100% ao mês de troca de água, em alguns casos. Aparentemente, quanto menores os sistemas, maior a taxa de trocas, percentualmente falando. Apenas esse fato já basta para diferenciar completamente um sistema do outro, e realmente, os sistemas do Dr. Jaubert não são viáveis para nossas casas. São sistemas chamados "abertos", pois recebem água "nova" constantemente. Na maioria, também, são sistemas grandes para nós aquaristas; os menores aquários têm 1.000 a 1.200 litros de água. Os maiores chegam a 15.000.

Vemos, portanto, que há uma grande diferença entre esses sistemas, e enormes diferenças se compararmos qualquer um deles aos sistemas muito em voga atualmente nos EUA e aqui no Brasil.

O que houve, nas Américas, na verdade, foi uma adaptação do sistema "natural" ao sistema "Berlin", desenvolvido e em uso há mais de vinte anos na Alemanha. Este último conta com o uso de rocha viva da melhor qualidade e porosidade possível para proceder à denitrificação, poderosos skimmers, adição contínua de hidróxido de cálcio em solução aquosa, bombas internas para movimentar a água, e forte iluminação artificial.

Todos esses sistemas contam com alto grau de introdução energética, para poder representar razoavelmente recifes de coral. A energia primária de todos eles é a luz, sem a qual não há vida coralina.

Todos eles, também, não são novidade nenhuma. Com pequenas variações, todos funcionam bem, e há mais de vinte anos.

Após tudo isso, continua a pergunta; o quê temos a ver com isso ? Como é que tanta gente reclama de seus aquários, montados como recomendado ?

Simples: o sistema misto "Jaubert-Berlin", como ficou conhecido nos EUA, procurou atingir o melhor dos dois mundos, ou seja, baixíssimos teores de poluentes, alto índice de crescimento, animais mais saudáveis do que jamais se vira em aquários, e, principalmente, relativa facilidade de manutenção. Esse objetivo é perfeitamente atingível, se formos cuidadosos. Eu conheço aquários de 5 anos, montados por nossa empresa, que funcionam dentro desse princípio misto, e os resultados são assombrosos no sentido positivo da palavra.

Na montagem do aquário, porém, é que encontramos a maioria dos equívocos cometidos. Vamos a eles;

1 – Nos EUA não se encontram mais hoje em dia as placas modulares de filtro biológico de que dispomos aqui, e por isso têm-se de improvisar na montagem do plenum com tubos de pvc e camadas de placas de acrílico perfuradas, cobertas por tela. É fácil desenvolver o seguinte raciocínio; quando o material usado no fundo se dissolver por ação química, há possibilidade de uma camada de tela encontrar a outra, e juntas formarem uma placa contínua que impede a difusão.

Isso ocorre de fato, e já observei pessoalmente aquários com problemas devido às telas terem grudado uma na outra e por isso isolado água debaixo da areia, com a conseqüente formação de H2S. Ou seja, por pura macaquice, só para copiar o que se faz nos EUA, muita gente está incorrendo no mesmo erro deles !

A solução neste caso é simples; monte o aquário com placas de filtro biológico, não ligue bomba nenhuma a elas, em momento algum, e cubra-as com uma camada de areia de halimeda de espessura entre 2,5 a 7 cm.

2 – Areia de halimeda.

Deixei especialmente em destaque a frasezinha acima de propósito. De novo, a mania e copiar o que se faz lá fora, sem questionar, traz problemas.

O material conhecido por areia de halimeda é composto por "folhas" de alga Halimeda spp. Após morta, essa alga deixa para trás praticamente só carbonato de cálcio, que acumulou em seu esqueleto.
Essas "folhinhas" tendem a se acumular em bancos (depósitos) no litoral, e são coletadas e embaladas secas para o mercado de aquarismo. Nos EUA existe muito maior facilidade de se coletar aragonita, que depois de moída serve ao mesmo propósito, apenas com uma diferença: A granulometria do composto deve ser a mais fina possível. O único material importado que serviria para nosso propósito é justamente o único que nunca vi em nenhum aquário no Brasil; ele se chama "sugar fine", de tão pequenos os grãos que o compõem.
Pegando um pouco na mão compreendemos o porquê do nome; parece realmente açúcar.

Explico; o grão pesado tende a ser mais difícil de mover do lugar do que o pequeno, mais leve. Se a areia do fundo não for revolvida periodicamente, a tendência de qualquer material calcáreo é de compactar e formar placas uniformes, e daí caímos no problema explicado acima.

Os grãos da areia têm de ser pequenos. Curiosamente, a Halimeda é muito leve, mesmo quando seu grãozinho tem diâmetro maior, devido a sua porosidade, e essa diferença em relação à aragonita a torna mais correta para a aplicação que desejamos. O fundo de areia de Halimeda é quase liqüefeito. A areia depositada no fundo é fácil de revolver, e se move constantemente. Para observar isso na prática, basta uma pequena experiência; coloque uma pequena rochinha sobre o fundo do aquário. Deixe-a lá por 24 horas. No dia seguinte, quase com certeza, verá que a rochinha afundou na areia, às vezes até desaparecer. Isso prova como o fundo fica sempre "soltinho", permitindo todo o processo químico até sua compleção. Permite também uma fácil colonização por organismos de todas as dimensões, que ajudam em todos os processos (bastante complexos) em andamento desde o plenum até a superfície da areia.

Teórica e praticamente, quanto mais profunda a camada de areia, maior a capacidade de denitrificação, mas devemos guardar respeito à estética. Um tanque com um palmo de areia visível não é tão bonito de se observar. Montar o aquário com essa areia, ou com aragonita bem fina, causa diferenças enormes; basta olhar um aquário montado de cada jeito; o que foi montado com Halimeda sempre tem uma enorme quantidade de vida visível a olho nu. O outro, quase sempre, é estéril. O conceito de julgamento parece simplista, mas é suficiente; quanto mais vida visível (vermes, pequenas estrelas do mar, ofiuróides, etc.), mais vida contém o aquário, pois os animais que podemos ver estão ali com o propósito de se alimentar. A Natureza é muito econômica; se não existir alimento disponível, ela não desperdiça vida; animal nenhum proliferará ali.

3 – A turma da limpeza.

É importantíssima. Vários aquaristas desprezam esses animais, principalmente se levarmos em conta que o conjunto deles, nas quantidades necessárias, tem custo bastante alto. Por outro lado, eles desempenham funções importantíssimas, por isso devemos prover o aquário de grande quantidade de ofiúros, ermitões pequenos, estrelas do mar (compatíveis com corais – algumas espécies se alimentam deles), e lesmas com casca (as famosas Turbo snail), além de eventualmente peixes que revolvam o fundo.

Caramujos Turbo spp, Astrea spp, e outros, servem para limpar as rochas de algas diatomáceas e outras micro algas incrustantes. Diatomáceas são muito importantes na sua dieta, e os caramujos comem o tempo todo ! Dá para notar isso olhando o vidro do aquário, se o deixarmos sem limpar por poucos dias; as trilhas deixadas no vidro por onde os caramujos passaram se alimentando ficam bem aparentes.

Estrelas e ofiúros se movimentam pesadamente, revolvendo a areia do fundo. Além disso, se alimentam de restos dos peixes e suas fezes. São animais cofrófagos, ou seja, comem material em decomposição. Essa característica os tornam muito úteis. Também por sua mania de ficar escondidos entre as rochas (a maioria prefere o escuro), podem atingir locais do aquário que de outra maneira acumulariam sujeira.

Ermitões de várias espécies são encontrados no mercado, e a maioria deles serve perfeitamente a nossos propósitos; notadamente P. cardenatti, o ermitão vermelho, e o Blue leg (azul), são bem úteis. Cada um à sua maneira, pois por observação notei que o vermelho prefere o fundo do aquário, e o azul, mais veloz, quase sempre anda nas rochas.

Ermitões dessas espécies comem algas, fundamentalmente, mas não recusam lixo. Daí sua utilidade.

4 – Suplementos e trocas d’água.

Nunca vou parar de advogar em nome de trocas de água. Já vi muito aquário completamente desequilibrado por falta de troca de água, e explico um pouco; à medida em que o tempo passa, os habitantes do aquário se utilizam de vários elementos componentes da água. Se projetarmos um período de muitos meses, veremos que haverá falta deste ou aquele elemento, e todos são fundamentais para os animais. Podemos usar suplementos, mas quem garante que a proporção dos componentes do produto final que é a água suplementada será igual à que encontramos na água do mar ? Além disso, não é mais fácil trocar água do que ficar adivinhando o que falta nela ?

A coisa toda é bastante simples, mas não podemos nunca ignorar nenhum passo. Qualquer falta de cuidado pode gerar problemas.

http://www.aqua.brz.net

Ricardo Miozzo
Colaborador de Aquarismo Marinho

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