AJUDA DE aquariofilia marinha - REEFFORUM

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Palhaços criados e anêmonas

Palhaços criados

Palhaços criados, anêmonas e outras lendas do aquarismo

 

De tempos em tempos aparecem no aquarismo comentários e colocações que, se postas à prova, mostram-se inverdadeiras, ou, pelo menos, ilógicas.

Uma delas é uma muito recente, que diz que "palhaços criados em cativeiro não fazem simbiose com anêmonas".

Ponto final. Alguém diz uma coisa dessas, o absurdo "cola", e vira moda. Ao lado, um casal de palhaços "maroon" (Premnas biaculeatus) criados na empresa ORA, dentro de uma anêmona bem rara que eu recebí há algum tempo. Ao longo deste artigo, veremos mais dessas fotos, só para mostrar o absurdo do que se propaga à toa, e acaba prejudicando o nosso hobby.

Vamos, agora que vimos a foto, à explicação lógica e clara da coisa toda;

Sabemos que um palhaço não precisa necessariamente de uma anêmona para viver. Sabemos o mesmo em relação à anêmona. O fato é que, ambos parecem se interessar muito um pelo outro, pois mesmo anêmonas nacionais, que nunca viram um peixe palhaço na vida, costumam recebê-los bem, como é o caso das "Passifloras" e outras, que já vi com palhaços felizes e contentes.

Sabemos também que, apesar dos peixes palhaço não precisarem de uma anêmona para viver, costumam procurar abrigo em algum outro invertebrado que se assemelhe a uma anêmona (e às vezes até não - eu tenho um casal de palhaços que mora num coral "colt"), como corais Euphyllia, por exemplo. Isso indica que, instintivamente, o palhaço se considera presa fácil, está sempre desconfiado que algo ruim possa lhe acontecer, e acaba procurando onde se esconder.

Agora, porque e como isso se dá ? Como é que um peixinho tão pequeno e aparentemente ignorante "sabe" essas coisas ? Simples e inexorável: genética. A Genética já é uma ciência estudada há mais de um século - lembra das aulas de biologia com a estória das ervilhas ? - e nesse período o ser humano tem conseguido verdadeiros prodígios com o que já conseguiu aprender.

Uma das coisas que aprendemos é que existe uma coisa chamada "código genético", que está inserido numa corrente enorme de apenas quatro compostos muito simples que, combinados de maneiras diferentes, fazem com que nós sejamos diferentes das flores e dos peixes palhaço. O código genético de cada pessoa dá suas características físicas, e chegou-se recentemente à conclusões (perigosas no meu ponto de vista) até mesmo comportamentais e tendenciais em relação a patologias herdadas e suas possibilidades de desenvolvê-las.

Vamos para o Mar, que essa conversa está ficando maçante. No Mar, assim que eclodem, os futuros peixes palhaço de uma determinada ninhada imediatamente procuram a luz (geneticamente programados para isso), e passam uma fase relativamente longa, dependendo da espécie, fazendo parte do plancto, junto à superfície da água. Muitos servem de comida à enorme variedade de animais que fazem parte desse verdadeiro ecossistema, mas muitos sobram para contar a estória e perpetuar suas espécies. Muito curiosamente, assim que estão formados como pequenos jovens palhacinhos, começam a procurar no fundo abaixo de si um local apropriado para se assentarem - uma anêmona. Anêmonas desocupadas são coisa rara neste mundo, pois já se provou que, quando se retiram todos os peixes de uma anêmona, logo aparece um borboleta ou outro peixe para comê-la. Então, o pequeno palhacinho normalmente desce perigosamente em direção a uma anêmona ocupada, e tenta começar a fazer parte da família, liderada por uma fêmea poderosa e incorrigivelmente brava, no entorno da tal anêmona.

Legal, não é ? Ao mesmo tempo que protege a anêmona e esta o protege, esse comportamento permite aos palhaços do mundo se entrecruzarem, mantendo linhagens fortes de sangue devido à variedade que a migração da larva obriga. O peixe, então formado, pode se assentar em uma anêmona que esteja a centenas de quilômetros de onde ele nasceu. Cruzando seu sangue com outros palhaços nas mesmas condições, forçosamente, a espécie se torna variada geneticamente, e por isso, mais consistente e menos propensa a ser dizimada por uma doença específica, ou coisa parecida. Isso é; a espécie não se deteriora por cruzamento repetido entre peixes de uma mesma linhagem ou família. A mãe de um palhaço tem uma possibilidade tão remota de eventualmente vir a cruzar com um filho seu quanto existem estrelas no céu. Olha aí do lado; um palhacinho criado A. clarkii (fazenda ORA - Miami) dentro de uma anêmona.

Portanto, as coisas definitivamente não são o que se diz.

Vamos ao peixe criado em cativeiro; podemos intuir com facilidade que os peixes que dão origem aos criados são provenientes do Mar. Não são, absolutamente, "aparecidos" do nada, e trazem consigo todo seu código genético. Seus filhos, portanto, terão todas suas tendências, os palhacinhos nascerão todos machos, os dominantes se trasnformarão em fêmeas, tudo exatamente como ocorre no Mar. Devido a esse fenômeno, eles se comportarão de acordo com sua genética, e, assim que forem apresentados a uma anêmona livre e apropriada à sua espécie, "entrarão" nela.

O palhacinho não precisa aprender a "entrar" numa anêmona, pois isso já está inscrito em seu código genético; esse não é um comportamento adquirido por observação. É genético, mesmo. O peixe não precisa ver outro fazer isso para imitar. Comportamento por imitação não tem nada a ver com o que estamos conversando.

Então, de novo; de onde saiu essa estória ?

A. percula (fazenda ORA) em anêmona "Long Tentacle" purple - uma associação rara (perculas são geralmente chatos e escolhem muito a anêmona em que vão ficar).

Outra foto de peixe criado em anêmona, para quem ainda não acredita.

Todas as fotos deste artigo foram tiradas por mim, em aquários da loja Poseydon.

A outra lenda recente, baseada no contraponto exato do que afirma este artigo;

Com a graça de Deus, recentemente começaram a aparecer no mercado outras famílias de peixes criados em cativeiro. São peixes anjo, borboletas, blênios, pseudochromis, e outros. Muitos ainda virão, se tudo der certo, para os aquaristas deixarem de ser os vilões do mar que gente ignorante diz que somos. Afinal - como diz meu amigo Alexandre Talarico - a coleta de peixes no Mar é uma atividade pesqueira como qualquer outra. Portanto, porque tanto barulho ?

Mas, enfim, esses peixes criados de outras famílias também têm seus códigos genéticos bem determinados e presos a suas existências. Logo, e desculpem-me novamente, eles farão o que estão geneticamente proramados para fazer, em relação à sua dieta, comportamento geral, e outros aspectos de suas vidas. Não existem, até onde sei, garantias de que um peixe anjo ou borboleta qualquer seja seguro para ser colocado em um aquário de corais só porque foi criado em cativeiro.

Eu fiz uma tentativa há uns três anos, de colocar corais e peixes anjo e borboleta num aquário de 600 litros que eu tinha. É interessante notar que muitas vezes, os peixes parecem não ligar para os corais por muito tempo. No meu caso específico, o aquário foi muito bem durantes meses. Os corais cresciam, os peixes eram lindos, cresciam vigorosamente, e um dia aconteceu. Um peixe, se não me engano um lindo anjo Blue face começou a comer as Xenias sp. e não parou mais até elas se acabarem. Na seqüência, um coral "colt", que eu tirei antes do fim. Ele determinadamente passou a comer tudo mais que existia no aquário e não se mexesse por conta própria - meu sonho havia acabado. Minha luta contra a genética, enfim, terminou. Um peixe fará o que um peixe faz. Isso é definitivo.

Conhece aquela estória do escorpião e do sapo ? Se não conhece, eu conto rapidinho;

Um escorpião queria atravessar um caudaloso rio, e sabia que não conseguiria. Olhou para o lado e viu, tomando um solzinho, um sapão criado e feliz. Aproximou-se, e pediu;

- Amigo sapão, me ajudarias a atravessar este caudaloso e cruel rio à nossa frente ? Tenho assuntos a tratar do outro lado...

O sapão olhou desconfiadíssimo e respondeu:

- Tá me achando com cara de bobo, Scorpi ? Você vai me picar !

- Não vou, não, Sapão. Se eu fizer isso, eu não chego onde quero, lá do outro lado deste medonho e apavorante rio caudaloso.

O sapão pensou muito tempo - isso eles tinham de sobra - e acabou topando;

- Sobe aí nas minhas costas, que eu te levo. Não estou fazendo nada mesmo, um exerciciozinho não me fará mal algum.

Feito; no meio do rio, o escorpião dá uma ferroada imensa no sapão, que grita de dor;

- Scorpi, seu monstro ! Prometeste não me picar ! Agora, vamos morrer os dois ! Não vou (blub blub : sapão começando a afundar envenenado) conseguir chegar do outro lado ! (blub blub blub...)

- Mas, caro e imbecil sapão; se eu não fizesse isso, eu não seria um escorpião ! (blub blub ..........- afundado também !!!!!!!!!).

Tem coisas, gente, que não adianta.

Abraço a todos, e bom aquarismo !

 



http://www.aqua.brz.net

Ricardo Miozzo
Colaborador de Aquarismo Marinho

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