AJUDA DE aquariofilia marinha - REEFFORUM

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Refugio

Introdução

A necessidade de alguns animais do aquário por certo tipo de dieta fez com que alguns aquaristas procurassem uma forma eficaz de prover com menor esforço os tipos de alimento necessários. Até essa época, alimentar peixes como o Mandarim (Sinchyropus splendidus), por exemplo, era algo entre difícil e muito difícil, chegando mesmo a ser considerado impossível. com o advento da utilização de rocha viva, percebeu-se que era possível manter por mais tempo animais até então considerados "impossíveis", mas infelizmente, de uma hora para outra, o alimento escasseava e o animal perecia de fome. Tornou-se necessário prover o aquário de uma fonte constante de alimento, e aí surgiu a idéia do "refúgio", local em que os organismos necessários à dieta de diversos tipos de habitantes do aquário pudessem reproduzir antes de completamente eliminados. O conceito de refúgio para aquários consiste, portanto, de um tanque ou recipiente conectado ao aquário, de maneira que vida micro e macroscópica se desenvolvam e não estejam imediatamente disponíveis fisicamente para os animais do aquário. Apenas uma parte desses organismos ficaria disponíveis, à medida em que fosse passados para o aquário principal via uma bomba de recalque ou outro artefato qualquer, que servisse para manter a água do refúgio em contato com a do tanque principal. A maneira de construir o refúgio, suas dimensões, taxa de recalque para o aquário e sua localização em relação ao tanque principal afetam o resultado final, tornando-o mais ou menos eficiente.

Volume

O refúgio deve ter volume compatível com a necessidade de alimento do tanque principal, pois quanto maior o refúgio, mais vida é capaz de produzir. O volume de cerca de 10% do total do aquário grande pode ser suficiente para gerar suficientes micro organismos úteis para, por exemplo, os corais. Mas pode ser insuficiente para alimentar um Mandarim ou Chelmon rostratus (Copperband butterfly), por outro lado.
Grande demais, o refúgio pode se tornar uma fonte de problemas, pois, fazendo parte do aquário por com ele compartilhar a água, poderá esquentar ou esfriar demais o sistema, indo de encontro aos aparelhos usados para originalmente manter o aquário sem refúgio. É interessante, portanto, pensar a respeito da necessidade de maior skimmer e resfriador, caso o refúgio seja planejado como adição de um aquário já funcionando.

Um volume razoável para o refúgio pode ser de algo em torno de 30% do volume total do tanque principal. Se o aquário tem 300 litros, por exemplo, um refúgio de 100 litros permite a formação de suficiente quantidade de organismos para suprir o aquário. A constituição da população do aquário será importante para determinar se esse volume é suficiente, pois se colocar peixes demais que só consumam copépodes ( animal que costuma ser muito comum em refúgios), mesmo com o refúgio pode haver escassez de alimento. Portanto, ter bom senso na colocação de peixes, sua quantidade e tamanhos são fundamentais.

Como exemplo, tenho a citar um aquário de 3000 litros que tinha uma infestação de Aiptasia spp., numa quantidade realmente assombrosa.
Chelmon rostratus, o Copperband butterfly, é sabido como um dos peixes que se alimentam de pequenas anêmonas, assim como de outros invertebrados. Colocar um Chelmon de tamanho grande foi a solução, mesmo apesar desse aquário não possuir refúgio; o peixe se alimenta de tantas Aiptasias quanto pode, não conseguindo, por outro lado, erradicá-las completamente. O peixe, após quatro meses nesse aquário, se apresenta saudável, continua crescendo e mantendo as Aiptasias sob controle. Colocar mais um peixe que se alimente desse mesmo ítem, portanto, seria temerário. Ambos, em competição por alimento, poderiam causar suas mortes a longo prazo. Escasseando demais, as anêmonas que sobrassem poderiam não bastar para os dois. É importante notar, apenas como aparte, como peixes marinhos precisam de muito mais espaço vital do que imaginamos; se soubesse antes que, para manter um Chelmon rostratus - ainda que um adulto grande - fosse necessário um tanque dessas dimensões, teria pensado muito antes de recomendar esse peixe a outros aquaristas. O que mais normalmente acontece nos aquários é que o aquarista coloca o peixe para comer as pequenas anêmonas. Resolvido um problema imediato, passa a ser o peixe o problema, e não mais as Aiptasias. Como mantê-lo vivo depois que ele erradicou a praga ? Já ví aquaristas procurarem nas lojas rochinhas com Aiptasias para alimentar seus famintos Chelmons. Naturalmente, nesse caso, foi o clássico "vestir um santo para despir o outro".

Fluxo de água

A quantidade de água que passa pelo refúgio vai determinar, afinal, a quantidade de animais criados alí que vai acabar indo para o aquário. A maioria dos animais que proliferam no refúgio são de movimentos relativamente lentos, e por isso grande circulação de água é desnecessária. A água, no entanto, precisa de movimento para não estagnar-se criando problemas para a taxa de oxigênio dissolvido do aquário todo. Um refúgio como o que foi dado exemplo acima, de 100 litros, pode perfeitamente ser eficaz com algo como 200 a 400 litros por hora (refúgio de 100 litros). Isso, no entanto, não é regra; pode-se, para aplicar ao refúgio propriedades de consumo de nitratos da água, diminuir o fluxo até um mínimo de 1 vez o volume do refúgio por hora.
No mesmo sentido, deve-se ter a preocupação de não causar turbulência demais no refúgio, evitando assim perturbar demais o subtrato.

Substrato

Pode-se usar como substrato para o refúgio o mesmo material que foi usado no fundo do aquário principal. Inclusive, em aquários já montados sem filtro desnitrificador de fundo, esse recurso é usado para não ser preciso desmontar o aquário todo. Adicionando-se um refúgio de dimensões generosas ao aquário, recobrindo toda sua superfície com substrato em camada de um mínimo de 8 a 10 cm de espessura, temos um filtro desnitrificador quase tão eficaz quanto se fosse construído no próprio aquário principal. É justamente nesse ponto que fazemos a maior distinção entre refúgio e "plenum adicional"; uma coisa é o refúgio, e outra é intencionalmente aumentar a quantidade de substrato usando o refúgio como filtro desnitrificador. O refúgio provido de substrato, qualquer que seja a natureza do material utilizado, não precisa ser um desnitrificador. Usar apenas uma camada fina de substrato basta para abrigar confortavelmente uma miríade de animais.

A função primeira do refúgio pode, no entanto, ser desvirtuada para servir como filtro desnitrificador. Só não se pode contar com grande migração de animais da fauna do substrato para o aquário, devido a suas características particulares. Vermes que proliferam no substrato raso dificilmente saem para a coluna d'água, de maneira que muitas vezes, acaba-se com um aquário sem luz ao invés de um refúgio. Já vi refúgios construídos com espessa camada de substrato terem problemas de proliferação excessiva de vermes poliquetas, e precisarem de controle biológico (nesse caso, adição de camarão Stenopus sp). Para evitar o problema de acabar com outro aquário para cuidar, além do principal, deve-se pensar bem na adição de substrato no fundo. Algumas rochas vivas de pequenas dimensões, no entanto, não causam prejuízo. Dado que a maioria dos refúgios é rasa, comparada às dimensões do aquário, rochas grandes demais podem causar problemas na circulação de água. Recomendo, portanto, rochas menores. Na rocha sim, reproduzem-se animais que normalmente saem à noite para passear e se alimentar na coluna d'água, sendo então passados para o aquário principal,onde podem ser aproveitados (predados) pelos peixes e outros animais.

A maior dúvida, portanto, é de conceito; queremos construir um refúgio ou um desnitrificador ? Ambos podem ser feitos no mesmo espaço, aproveitando, portanto, o que seria um refúgio para fazer as vezes de um desnitrificador. A questão que levanto é: será realmente necessário um sistema extra de remoção de nitratos, se no próprio aquário já existe esse sistema, integrado a todos os outros componentes do aquário ?

Se o aquário foi montado da maneira apropriada, a rocha viva e o substrato, (seja ele halimeda) ou outro, serão suficientes para manter o íon nitrato (NO3+) perto de zero. Afirmo que deve ser próximo a zero pois o zero absolutamente não é objetivo, mas resultado da dinâmica do aquário. É muito comum ouvirmos que um determinado aquário tem "nitrato zero", o que seria um ambiente absolutamente inóspito para a vida como a conhecemos. O que acontece nesses casos é que os nitratos disponíveis são "desmontados" pelo filtro desnitrificador ou mesmo consumidos pelos animais do aquário. A resultante do sistema, portanto, é zero. Dizer por exemplo, não conseguir manter Tridacnas por falta de nitrato no aquário é bobagem. A culpa é de outro fator, pois os nitratos que eventualmente a concha possa precisar estão lá.

Local do refúgio

O refúgio pode ser colocado em qualquer lugar em que fique prático e funcional. Muitos refúgios são montados como verdadeiros filtros de algas, onde se cultiva geralmente Caulerpa sp., com a finalidade de reduzir nitratos e fosfatos, ou mesmo com intuito de equilibrar o pH da água do sistema, fazendo no refúgio o período de luz quando a luz do aquário estiver apagada, e vice-versa. Essa é, na minha opinião, uma excelente forma de equilibrar o sistema tamponador, mas péssima sob o ponto de vista dos corais se desenvolverem mais. As algas, e principalmente Caulerpas, costumam crescer muito mais rápido do que qualquer coral; além disso,culturas de Caulerpas costumam sofrer colapsos quando deixadas muito tempo por conta própria, liberando literalmente uma sopa de problemas no aquário. Alguns compostos dessa sopa são tóxicos para certos peixes e para corais. A água, nessas ocasiões, costuma ficar verde por dias, até o skimmer conseguir retirar todo o material morto da alga. O maior problema, no entanto, é que filtros de algas costumam amarelar a água constantemente. Faz parte do metabolismo das algas liberar na água ácidos húmicos, que tornam a água sempre amarelada. Isso não é bom para os corais. Existem algumas vantagens em cultivar algas em aquários, para certos peixes, mas em tanques onde o principal objetivo seja a manutenção de animais oriundos do Indo-Pacífico, é melhor deixar as algas fora.

A forma mais econômica de manter o refúgio é colocá-lo entre o aquário e o sump, fazendo um desvio no cano do vertedouro para alimentá-lo com água. Dessa forma, não é necessário usar nenhuma bomba. A água passa pelo refúgio antes de terminar de cair para o sump. Isso se aplica a sumps que ficam debaixo do aquário, e possuem espaço para a colocação do refúgio. Como esse caso é relativamente raro - normalmente tudo o que falta dentro de um móvel de aquário é justamente o espaço, podemos colocar o refúgio acima, ao lado ou atrás do aquário,(se houver espaço, novamente).O mais comum é montar o refúgio ao lado do aquário e usar uma pequena bomba para mandara a água de volta para o sump ou mesmo para o aquário. As conexões e tubos devem ser cuidadosamente montadas a fim de evitar coisas como um vertedouro permanente do aquário, onde caso haja falta de luz, o sistema inteiro caia pelo cano do refúgio - o verdadeiro desastre. Não fique espantado com isso; água é uma coisa difícil de ser manuseada. Monte o sistema de maneira simples. É recomendável procurar adaptar o refúgio no espaço de dentro do móvel a fim de evitar problemas, pois basta apenas fazer um desvio do vertedouro e um vertedouro para o refúgio, onde a água cai direto no sump.

O sump

Afinal - muitas vezes é possível ver no sump uma quantidade enorme e surpreendente de animais - o sump não é um refúgio por si mesmo ?

Podemos usar o sump como tal, pois ele acaba mesmo servindo para isso. O problema é a limpeza do sump, que deve ser periódica. Ao invés de limpar o sump cirurgicamente, pode-se apenas sifoná-lo e manter as diversas formas de vida ali presentes para alimentar o aquário. Claro que, dependendo do formato do sump e sua construção, animais vão acumular-se nele com maior ou menor sucesso. Por causa disso mesmo, os sumps de desenho mais simples favorecem a multiplicação de animais, e os mais complicados tendem a retê-los, dificultando sua reprodução. Um sump bem cuidado não é obrigatoriamente tão limpo que os vidros podem servir de espelho.
Nele, com o tempo, vemos aderirem aos vidros diversos tipos de animais como esponjas e briozoários, e pela água vemos constantemente copépodes, anfípodas e outros tipos de vida. O fato do uso de sumps embaixo do aquário ser tão disseminado entre nós, aquaristas brasileiros, me leva a questionar, finalmente, se o refúgio é mesmo tão necessário. Seria apenas o caso de se projetar um sump de dimensões grandes comparado ao volume total do aquário e esperar a vida se desenvolver nele.

http://www.aqua.brz.net

Ricardo Miozzo
Colaborador de Aquarismo Marinho

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