Introdução
Já escrevi sobre este assunto, mas decidi formalizar os meus escritos num artigo para publicação na esperança de que seja melhor explicado e assim ajude outros a evitar erros que podem ter consequências devastadoras. Isto não se destina a causar alarme e medo, pelo que por favor não deitem fora aquela criatura bonita que tanto cobiçaram na LPL
(NT: tradução de LFS=Local Fish Store=Loja de Peixes Local) e que finalmente trouxeram para casa para o vosso sistema de recife, porque agora se dão conta que pode ser pior do que a Godzilla ou o próprio diabo. Há soluções para tais casos e vocês seguramente irão encontra-las aqui na Manhattan Reefs ou no vosso fórum/clube local.
Este artigo destina-se a informar, especialmente os iniciantes e os desconhecedores. Também não é uma compilação exaustiva de todas as criaturas marinhas que são potencialmente perigosas, (seja para o aficionado dos recifes, para o sistema ou ambos), mas uma descrição pontual sobre várias criaturas disponíveis no mercado que podem ser potencialmente introduzidas num aquário de recife sem se saber.
Pseudocolochirus sp. and Paracucumaria sp. - Maçã do Mar - Sea Apple
Maçã do Mar - Sea Apple - (c) J.C. Delbeek
Credito da Fotografia: J.C. Delbeek, Cortesia da Academia de Ciencias da California - Courtesy of the California Academy of Sciences
Este animal tem um aspecto vistoso, especialmente para o iniciante e além disso é habitualmente acessível para comprar. Contudo pode ser e será muito caro para manter.
Pseudocolochirus spp (espécies
axiologus,tricolor, ou
violaceus) e
Paracacumaria spp (espécies
tricolor, deridderae ou
hyndmanii) são habitualmente vendida sob a designação de Maçãs do Mar e podem ser animais muito venenosos para todo o recife!!!
A Maçã do Mar é um filtrador que requer quantidades consideráveis de alimento em partículas, fitoplâncton e zooplâncton, para prosperar, alimento que recolhe com os seus braços vermelhos posicionados à volta da abertura bocal enquanto está fixa a uma parede ou rocha ou qualquer outra superfície que proporcione superfície de adesão aos seus pés tubulares vermelhos ou amarelos. Vista a recolher pacificamente as partículas de comida que passam na coluna de água, é bem bonita e exótica de se ver, contudo não se deixem enganar por esta criatura de aspecto pacifico e cores vivas. Sob esta beleza e aparência exótica, este animal tem um veneno muito poderoso--Holoturina--que pode libertar para a coluna de água. Fará isto por muitas razões: se estiver sob desgaste, se estiver esfaimada, se tiver sido atacada por outros animais, se estiver ferida, se se reproduzir, ou até se tiver atingido o termo da sua vida natural e estiver a morrer.
Por favor não pensem que serão capazes de reagir prontamente e efectuar trocas de água para remover o veneno e salvar os outros animais, porque não podem. O veneno é tão potente e rápido a actuar que vencerá qualquer uma das vossas tentativas. Um amigo meu pensava que poderia prevenir isto e apesar dos muitos avisos que lhe demos, aprendeu da forma pior. Levou 30 minutos a matar toda a vida no aquário todo e assistiu a tudo sem nada poder fazer.
Ainda assim se estão realmente determinados a manter uma destas jóias perigosas do recife, então façam-no num aquário dedicado a uma espécie, onde pode viver pacificamente e ter atenção especial. Se correr algo de errado, estará confinado nesse aquário dedicado a uma espécie onde vive só ou com alguns membros da sua espécie.
Além das Maçãs do Mar, há vários outros animais que podem produzir e libertar Holoturina. Aqueles apelidados de pepinos do mar encontram-se entre esses, e tal como as Maçãs do Mar, pertencem aos Holoturideos. Os pepinos do mar são frequentemente sugeridos como bons detritivoros, o que de facto são, e muitos aficionados mantêm-nos sem quaisquer incidentes. Embora o veneno libertado pelos pepinos do mar não seja tão concentrado como o das Maçãs do Mar, várias espécies de pepinos do mar vendidos no comércio, são capazes de produzir e libertar Holoturina como mecanismo de defesa. Este fenómeno é frequentemente anunciado pela evisceração dos órgãos internos designados por Tubos de Cuvierianos ou Órgãos Cuvierianos, após o que a Holoturina é libertada. Se tiverem um destes animais e presenciarem um tal acontecimento, devem remover os órgão eviscerados e efectuar trocas de água assim como escumação intensa e usar carvão activado. Esta acção, embora não sendo uma garantia, mostrou ser boa ajuda para minimizar as perdas.
Asthenosoma sp. - Ouriço de Fogo - Fire Urchin
Fire urchins - (c) J.C. Delbeek
Credito das Fotografias: J.C. Delbeek, Cortesia da Academia de Ciencias da Califórnia - Courtesy of the California Academy of Sciences Os ouriços-do-mar
Asthenosoma (espécies
varium ou
ijimai) são muito conspicuos na medida em que exibem padrões de cor muito atraentes e vistosos. Tal como muitas outros seres marinhos, cores vistosas podem ser um aviso de potencial perigo e a natureza usa esta coloração para avisar os predadores. Neste caso o ouriço de fogo é capaz de infligir uma picada muito dolorosa com as pontas venenosas dos espinhos. Entre os longos e frágeis espinhos encontram-se grupos de espinhos mais curtos tipo pente que têm sacos de veneno bolbosos mesmo por baixo das pontas. Em algumas espécies os sacos de veneno são azuis enquanto que noutras podem ser brancos. Desde que o ouriço-do-mar não seja tocado, é inofensivo. Os acidentes ocorrem habitualmente quando se manuseia o ouriço-do-mar ou enquanto se efectuam operações de manutenção no aquário, situação em que se pode tocar no ouriço inadvertidamente. Se os espinhos furarem a pele, sentirão uma dor imediata e intensa que aumenta de intensidade ao longo das próximas horas, acompanhado de inchaço local.
Se de facto pretendem manter estes ouriços-do-mar, então devem usar luvas anti-furo todas as vezes que efectuarem operações de manutenção no aquário ou que manuseiem o ouriço-do-mar.
Ouriço Flor - Flower Urchin, fotografia (c) 2008, Rokus Groeneveld,
diverosa.com.
Os ouriços-do-mar
Toxopneustes sp.(
roseus ou
pileoleus) têm tanto de bonito como de mortal, e assim representam uma grande ameaça para o aquarista. A superfície muito conspícua e de aspecto macio destes ouriços está coberta com estruturas tipo flor muito atraentes, que têm aproximadamente 6mm (0,25 polegadas) de diâmetro. Estas estruturas bonitas são espinhos modificados designados por
pedicillaria. cada
pedicillaria está equipada com um talo que suporta três mandíbulas com dentes curvos afiados que têm uma glândula basal com veneno. Quando furam a pele injectam um veneno muito potente que de acordo com o Museu Bishop das Ilhas Cook, causa uma dor aguda e paralisia muscular que pode durar cerca de 6 horas. De acordo com a mesma fonte, a morte pelo veneno é desconhecida, mas a dor pode levar ao afogamento acidental quando se mergulha. Em casa os efeitos podem variar e a idade e saúde do aquarista provavelmente também têm o seu papel significativo.
Desencorajo vivamente o manter deste ouriço-do-mar. Em alguns países ou estados, a posse de tais animais não é permitida. Se ao lerem este artigo constatarem que têm um, por favor usem sempre luvas anti-furo quando estiverem a operar no aquário e devem avisar os vossos parentes próximos, amigos aficionados e especialmente o vosso médico do facto de que mantêm um destes ouriços-do-mar, para que se alguma coisa correr mal as pessoas vos possam assistir melhor e mais adequadamente.
Phyllidia varicosa – Nudibrânquio Mata Peixes - Fish Killing nudibranch
Phyllidia varicosa, nas Maldivas
Credito das Fotografias: Carlos Prates, 2008
A
Phyllidia varicosa é uma espécie de nudibrânquio muito conspícua que se alimenta de esponjas e frequentemente morre de fome no aquário por falta de acesso às mesmas. São especializados na alimentação e não é qualquer espécie de esponja que serve. É um animal muito venenoso is isso deve-se a dieta especializada de esponjas, das quais incorpora as toxinas que depois usa como mecanismo de defesa contra predadores. Anuncia a sua natureza venenosa através do seu rico padrão vistoso, tal como muitos outros nudibrânquios. Enquanto vive produz uma toxina potente que usa no seu muco que cobre o seu corpo. No mar um predador incauto liberta-a mal saboreia o muco e isto deve encerrar o incidente, mas num sistema fechado, o predador ou outros habitantes não têm para onde ir e podem ser envenenados na sequência de um incidente. O vosso recife será certamente envenenado quando o animal morre seja à fome ou simplesmente porque o seu curto tempo de vida natural terminou.
A
Phyllidia varicosa é possivelmente o pior, mas em geral todos os nudibrânquios são potencialmente perigosos. São todos muito coloridos e conspícuos tal como os do Género
Chromodoris como a
Chromodoris luterosa ou do Género
Nembrotha, como
Nembortha cristata. Isto torna-os quase irresistíveis para fotografar e para manter. Os
Dendrodoris sp. alimentam-se de esponjas que são a sua fonte de toxinas. Modificam estas toxinas para as tornar ainda mais tóxicas e quando morrem podem libertar estas toxinas na coluna de água e isto num sistema fechado pode aniquilar todo o sistema.
A menos que tenham muita experiência e tenha tanto a possibilidade de providenciar a fonte de alimento exacto na quantidade adequada assim como espaço para albergar este animal num aquário de espécie única, sugiro que não mantenham nenhum destes seres.
Hapalochlaena sp. – Polvo de anéis azuis - Blue Ring Octopus
Polvos de anéis azuis - Macho (esquerda) e fêmea (direita).
Fotografias por Roy Caldwell, Universidade da Califórnia, Berkeley - University of California, Berkeley
Quando o polvo tem os seus tentáculos completamente estendidos, não é maior de que uma mão aberta de um homem adulto, mas é suficientemente mortífero para matar dez adultos. Maculotoxina é o nome do seu veneno e estudos subsequentes demonstraram que é uma forma de Tetrodotoxina (TTX) (tal como a dos peixes Balão). Está na saliva produzida por uma das duas glândulas que o polvo possui, e que usa para defesa contra predadores. A outra glândula produz uma toxina inofensiva para os humanos, e que usa para caçar prezas. O polvo de anéis azuis é um tanto tímido e não agressivo, mas se perturbado pode morder através de um fato de mergulho do tipo húmido, e injectar-vos o veneno paralisante neuromuscular acima mencionado. É um veneno extremamente potente que bloqueia os canais de sódio levando à paralisia e falha respiratória. O coração e cérebro continuam a funcionar uma vez que a TTX não tem efeito directo sobre estes, mas a falta de oxigénio causada pela paralisia pulmonar, causará a morte. A mordedura é descrita por algumas fontes como sendo pouco dolorosa e por outras como sendo dolorosa. Dolorosa ou não, a vitima pode ficar imóvel com pupilas dilatadas. Algumas vitimas reportam terem ficado conscientes mas incapazes de responder, incapazes de respirar sem assistência respiratória artificial, e incapazes de falar ou de se mover. Não é conhecido antídoto e o tratamento possível consiste em massagem cardíaca e respiração artificial até que o veneno tenha sido eliminado. Isso deve ocorrer umas 24 horas depois do incidente ter ocorrido. A vitima pode então recuperar completamente sem efeitos secundários a menos que haja danos cerebrais devidos a anoxia.
Os anéis azuis são de facto um sinal de aviso e não estão sempre visíveis, mas quando o polvo os mostra, isso significa que está disposto a ser mortífero. Conhecimentos de TRC - Técnicas de Ressuscitação Cardiopulmonares - são fundamentais e devem ser dominadas por parentes próximos, "recifistas" (aquaristas amigos aficionados dos recifes) de alguém que tenha decidido manter um destes animais. Dito isto é melhor ver estes polvos numa instituição que tenhas os meios e pessoal treinado para os manter. Se mergulham e calhem de mergulhar no habitat natural destes polvos, então fotografem-nos apenas sem lhes tocar e usem fatos de mergulho e luvas bem grossos. Se forem à praia em tais lugares, limitem-se a observa-los nas poças de maré, mas não lhes toquem.
Os polvos são criaturas intrigantes e muito inteligentes que chamam à attenção assim que são visíveis. São mestres do escapismo e podem passar através de aberturas incrivelmente estreitas. Podem mesmo aprender truques e memoriza-los. Tendo tantos atributos interessantes, torna-os irresistíveis para muitas pessoas que assim os querem manter. Estes animais requerem muito para ficarem de boa saúde e mesmo assim a maioria das espécies não duram muito porque a sua esperança de vida total natural é de cerca de 3 anos. Os polvos necessitam de parâmetros de água de qualidade superlativa ou morrerão. Não toleram nitratos e baixa oxigenação. São comedores que sujam muito e necessitam de muita comida viva, (e um numero significativo de peixes e invertebrados a viver no aquário com os polvos, mais cedo ou mais tarde tornar-se ão comida), assim em consequência produzem muita urina e detritos que contaminarão fortemente a água na qual vivem, pelo que escumação intensa é obrigatória entre outras técnicas de filtragem forte. Os chocos e as lulas também são muito apreciados e têm comportamento semelhantes ao dos polvos. Tal como estes, também têm esperança de vida natural curta e requerem parâmetros de água superlativos para ficarem de boa saúde.
Conus sp. - Búzios Cone – Conus snails
Búzio Cone - Conus Snail - (c) J.C. Delbeek
Crédito da Fotografia: J.C. Delbeek, Cortesia da Academia de Ciências da Califórnia - Courtesy of the California Academy of Sciences
Os búzios do género
Conus são assim designados por causa da forma da sua concha, frequentemente muito bonita, que se parece com um cone. De facto as conchas destes búzios são tão bonitas que são muito cobiçadas pelos coleccionadores de conchas pelo mundo inteiro, assim se pesquisarem na internet por búzios cone ou cone snails, é muito provável que encontrem muitos sites dedicados à sua identificação, o que ajuda muito quando alguém necessita de identificar um dado espécime.
Os
búzios cone são uns dos seres que podem entrar no vosso sistema com a rocha viva e não necessariamente como uma compra de impulso numa LPL. Os búzios
cone são predadores por natureza e assim estão divididos em três grupos de hábitos alimentares:
Os que se alimentam de vermes - O maior grupo destes três
Os que se alimentam de outros búzios - O segundo maior grupo destes três
Os que se alimentam de peixes - grupo mais pequeno destes três e o que reúne as espécies mais perigosas para os humanos.
Os búzios
Cone são lentos por natureza, assim de modo a compensar por esse facto, estão equipados com um veneno muito potente que lhes permite paralisar e matar as suas vitimas no local. Estão equipados com um dente que se parece com um harpão e injecta o veneno no corpo da presa. O veneno é tão potente que a presa é paralisada instantaneamente.
Há numerosas espécies potencialmente perigosas para os humanos, mas para este artigo, eu apenas descreverei uma espécie,
Conus geographus, popularmente conhecido como o Búzio do Cigarro.
Conhecido para a ciência como
Conus geographus, é um búzio bastante grande. Não há mal em observa-lo, seja em poças de maré ou dentro de um aquário, contudo recolhe-lo é um erro que pode ser muito mau. Nas poças de maré algumas pessoas querem ter mais do observar, então cometem o erro de o recolher. Colocam-no dentro de um dos seus bolsos ou simplesmente seguram-no na mão...um erro que descobrem quando sentem uma picada na perna ou na mão, talvez como a picada de uma abelha, mas as consequências no caso do [
Conus geographus podem ser fatais. De facto a designação Búzio do Cigarro não é mais do que humor negro baseado no tempo médio que leva a para o veneno matar uma pessoa e que é cerca do mesmo tempo que leva a fumar um cigarro...o último. Muito mais pode ser dito acerca destes búzios, mas no âmbito do propósito deste artigo, sugiro que não mantenham estes animais, mesmo que estejam num aquário dedicado à espécie. Não há anti-veneno conhecido!
Zoanthus, Protopalythoa, Palythoa, Parazoanthus sp. – Zoanthidae - limu-make-o-Hana – - Alga Marinha da Morte - Sea Weed of Death
Zoanthidae e Palythoa. Fotografias por Lissa Mann
Muito populares, muito fáceis de manter, disponíveis numa ampla variedade de cores e tamanhos, a "Limu-Make-o-Hana", que se traduz por Alga Marinha da Morte (podem ler a história
aqui), não é mais do que os muitos apreciados e mantidos zoanthidae. Os zoanthideos produzem um veneno muito poderoso no seu muco designado por palytoxina. É um dos venenos mais tóxicos do mundo. Limu-Make-O-Hana demosntrou recentemente ou seu poder de modo "gentil" a dois membros do MR que provavelmente nunca mais se esquecerão de usar luvas quando manusearem zoanthideos
Reef Keeping Precautions* ( 1 2 3 ... Last Page) (More about palytoxin on Manhattan Reefs.). Mantenham zoanthideos mas não se esqueçam de os manusear com luvas.
Conclusão
É obvio que muito mais podia ser dito. Por exemplo a TTX (tetradotoxina) é produzida por muitos mais animais do que habitualmente sabemos, e isso é relacionado com o facto de que este veneno é produzido por um grupo de bactérias que vivem em associação mutualista com vários animais diferentes. O mesmo se passa com a palytoxina que não é produzida exclusivamente por zoanthideos. Seja como for, esses temas excedem o âmbito e propósito deste artigo que é acima de tudo vocacionado para informar e ajudar as pessoas a evitar consequências devastadoras.
Atenciosamente
Pedro Nuno Ferreira
Vila Nova de Gaia - Portugal

Pedro Nuno Ferreira - vem de Vila Nova de Gaia, Portugal, que é a cidade onde de facto o Vinho do Porto é preparado. Mantém animais aquáticos há 32 anos e animais marinhos há 21. É moderador com funções de Administrador no
www.reefforum.net, um fórum Português com mais de 7000 membros. O Pedro fala e escreve várias línguas e assim traduz para Português muitos artigos sobre aquários.